- Strategy deve retomar compras de Bitcoin após pausa de uma semana
- Empresa detém 818.334 BTC avaliados em US$ 61,8 bilhões
- Saylor admite vender BTC para custear dividendos de credores
Michael Saylor voltou a usar seu roteiro habitual para antecipar uma nova compra de Bitcoin pela Strategy. No domingo, o cofundador da empresa publicou no X a frase “Back to work, BTC”, mensagem que historicamente antecede aquisições anunciadas na segunda-feira seguinte. O sinal aparece após uma semana atípica, a companhia interrompeu sua sequência de compras antes da teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2026.
A última operação registrada ocorreu em 27 de abril, quando a Strategy adicionou 3.273 BTC ao tesouro por cerca de US$ 255 milhões. Com isso, o saldo total da empresa chegou a 818.334 BTC, equivalentes a aproximadamente US$ 61,8 bilhões aos preços vigentes na data de publicação. O volume representa cerca de 4% de todo o Bitcoin em circulação, segundo dados divulgados pelo CEO Phong Le.
A quebra de um dogma
O recado mais relevante da teleconferência não foi sobre comprar, mas sobre vender. Saylor admitiu que a Strategy poderá liquidar parcelas do tesouro periodicamente para honrar dividendos devidos aos detentores de seus instrumentos de crédito. A declaração rompe com o discurso anterior de jamais se desfazer de BTC, postura defendida pela empresa desde 2020.
“Provavelmente vamos vender um pouco de Bitcoin para financiar um dividendo, só para imunizar o mercado, para enviar a mensagem de que fizemos isso”, disse Saylor durante a chamada com investidores.
A justificativa, segundo ele, é demonstrar capacidade operacional, não necessidade financeira. Ainda assim, parte da comunidade enxergou contradição com anos de retórica acumulada.
Phong Le buscou conter o ruído. O executivo afirmou em entrevista à CNBC que vendas ocorrerão apenas em situações específicas, como pagamento de dividendos preferenciais e diferimento tributário. Le também argumentou que o volume médio diário negociado de Bitcoin, superior a US$ 60 bilhões, absorveria sem dificuldade os US$ 1,5 bilhão anuais comprometidos com credores corporativos.
Reações divididas no mercado
O anúncio dividiu opiniões. Adam Livingston, investidor da Strategy, defendeu que vendas pontuais podem ser acretivas ou seja, financiariam aquisições maiores no futuro, ampliando a métrica de satoshis por ação. Samson Mow seguiu linha parecida, apontando que a flexibilidade dá à empresa mais espaço para manobrar nos mercados de capitais.
Do outro lado, surgiram alertas sobre um possível “doom loop”. O argumento dos críticos é direto, se a Strategy precisar vender BTC para pagar juros e dividendos enquanto o preço do ativo cai, a pressão vendedora se autoalimenta. O risco aumenta porque a companhia se transformou no maior comprador líquido do ciclo atual relatório recente da Bitwise atribui parcela substancial do rali recente justamente às compras corporativas lideradas por ela.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para quem opera na B3 ou em exchanges locais, a movimentação tem dois desdobramentos práticos. Primeiro, ações da MSTR são acessíveis via BDRs e fundos brasileiros expostos a empresas-cripto, o que torna a política de tesouraria da Strategy variável relevante para o portfólio. Segundo, a tese de “comprador permanente” que sustentou parte da narrativa de alta do Bitcoin em 2024 e 2025 ganhou uma ressalva importante.
Saylor tentou minimizar o ponto recentemente, ao prometer comprar de 10 a 20 vezes mais BTC do que vender. Ainda assim, a admissão pública sobre cenários específicos de venda introduz uma variável que não existia antes na modelagem dos analistas que cobrem a tese MSTR.
Há também leitura técnica que merece atenção. Dados on-chain mostram que 78% do supply de Bitcoin permanece imóvel há mais de seis meses, indicador que reforça a escassez de oferta líquida. Nesse contexto, mesmo vendas modestas da Strategy enviam sinal narrativo desproporcional ao volume real, especialmente em janelas de baixa liquidez nos finais de semana exatamente quando os anúncios de Saylor costumam aparecer.
A retomada das compras nesta semana, se confirmada na segunda-feira, será a primeira após o reposicionamento estratégico. O mercado observará dois pontos, o tamanho do lote adquirido e o preço médio executado, métricas que indicarão se a empresa segue agressiva mesmo com a nova flexibilidade de tesouraria em mãos.

