- Padrão pós-halving aponta fundo entre 875 e 917 dias após o evento
- 830 mil BTC migraram de traders para carteiras de longo prazo no ciclo
- ETFs spot dos EUA somam 6 semanas seguidas de captação líquida
O Bitcoin lateraliza em torno de US$ 80 mil e divide opiniões sobre se o fundo do ciclo já ficou para trás. Um recorte histórico dos dois últimos halvings sugere que ainda pode faltar correção. Ao mesmo tempo, dados on-chain apontam para um aperto silencioso de oferta capaz de inverter o cenário.
Nos ciclos de 2016 e 2020, o preço do BTC registrou mínimas entre 875 e 917 dias após cada halving. As quedas máximas chegaram a 73% em 2018 e cerca de 64% em 2022. O ciclo atual, iniciado com o halving de 2024, está em torno de 750 dias — ou seja, ainda dentro da janela em que historicamente se formaram os fundos.
Divergência em relação aos ciclos anteriores
O comportamento de preço, porém, foge do roteiro. A perna pós-halving de 2017 entregou rali superior a 1.300%, e a de 2021 chegou a 60%. Já a de 2025 fechou negativa em cerca de -6,3%. A escassez programada não se traduziu na alta vertical típica das fases iniciais de ciclo.
Março e abril somaram aproximadamente 15% de valorização, mas raramente o BTC encadeia três meses consecutivos de fechamento forte em fases ainda contaminadas por viés baixista. Maio entra como teste. O ciclo de 2026, na conta acumulada, segue 7,5% no negativo, número alinhado ao padrão histórico pós-halving — o que reforça a tese de que o pior pode não ter passado.
Para o investidor brasileiro, a leitura técnica precisa ser combinada ao macro. O corte de juros do Fed só deve sair em dezembro de 2026, segundo o Goldman Sachs, o que mantém o dólar pressionado e o real volátil. Em real, o BTC oscila perto de R$ 460 mil, faixa em que exchanges nacionais como Mercado Bitcoin e Foxbit registraram aumento de ordens de compra recorrente desde abril.
Baleias acumulam e supply aperta
Na superfície, o gráfico assusta. Por baixo, a fotografia muda. O tamanho médio das ordens spot de baleias vem subindo, sinalizando absorção contínua nas quedas. O indicador de lucro/prejuízo realizado líquido voltou ao terreno positivo, indício de que a fase de capitulação perde força.
Os números mais relevantes vêm da distribuição de oferta. Hoje, 78,3% do supply de Bitcoin está em carteiras de longo prazo, contra 74,1% no início do ciclo. A diferença de 4,2 pontos percentuais equivale a 830 mil BTC migrando das mãos de traders especulativos para holders pacientes — algo perto de US$ 66 bilhões ao preço atual. O movimento é compatível com a queda nas reservas em exchanges, que perderam 100 mil BTC em 90 dias.
O fluxo institucional acompanha. Mesmo após dois dias de saídas pontuais, os ETFs spot de Bitcoin nos EUA acumulam seis semanas consecutivas de captação líquida, a maior sequência desde agosto de 2025. Para fins de comparação, a mais recente saída de US$ 277 milhões não foi suficiente para quebrar a tendência de entrada do trimestre.
Armadilha de baixa no radar
A combinação de consolidação técnica, acumulação por grandes carteiras e demanda institucional via ETF cria as condições para um eventual bear trap. Se o supply continuar travado enquanto o preço lateraliza, qualquer estopim de demanda pode forçar um movimento abrupto para cima — quebrando o paralelo com 2018 e 2022.
A leitura inversa também está na mesa. Caso o BTC perca o piso de US$ 80 mil com volume e o net realized P/L volte ao vermelho, o roteiro histórico de fundo entre 875 e 917 dias pós-halving ganha tração. Isso colocaria a mínima do ciclo em algum ponto entre janeiro e março de 2027, com correção adicional de até 30% a partir dos níveis atuais.
O próximo gatilho de curto prazo está nos dados de inflação dos EUA e na agenda regulatória, com o CLARITY Act marcado para 14 de maio no Senado americano.

