- Mercado Bitcoin confirma interesse em comprar empresas de pagamentos com stablecoins, especialmente aquelas que atuam em transferências internacionais.
- Exchange recebeu R$ 100 milhões da Tether, emissora do USDT, e já incorporou clientes de Bitso, Bity e Coinext por meio de acordos comerciais.
- Empresa ultrapassou 4,8 milhões de clientes e vê nas novas regras do Banco Central uma oportunidade de consolidação do mercado cripto.
O Mercado Bitcoin (MB) está avaliando a compra de empresas especializadas em pagamentos com stablecoins, incluindo soluções que utilizam criptomoedas atreladas ao dólar, como o USDT, para movimentar recursos entre diferentes países. A estratégia faz parte dos planos de expansão da exchange brasileira, que busca aproveitar a reorganização do setor após a entrada em vigor das novas regras do Banco Central.
Em entrevista à Exame, publicada em setembro, Roberto Dagnoni, CEO da 2TM, grupo controlador do Mercado Bitcoin, confirmou que a companhia continua acompanhando oportunidades de fusões e aquisições. O principal interesse envolve empresas que possam ampliar sua oferta de produtos financeiros ou sua presença em outros mercados.
A estratégia foi reforçada em uma nova reportagem publicada pela Veja em 31 de outubro. Segundo a publicação, o Mercado Bitcoin confirmou que segue avaliando aquisições e parcerias, principalmente com empresas de pagamentos internacionais e soluções baseadas em stablecoins.
O interesse ocorre poucos meses depois de a exchange receber R$ 100 milhões da Tether, responsável pela emissão do USDT. O investimento, anunciado em julho, foi destinado ao fortalecimento de operações com stablecoins, tokenização, crédito e infraestrutura de pagamentos.

Mercado Bitcoin quer comprar empresas que usam stablecoins em pagamentos internacionais
O interesse do Mercado Bitcoin em pagamentos internacionais faz parte de uma mudança na estratégia da companhia, que pretende ampliar suas atividades para além da compra e venda de criptomoedas.
Segundo Dagnoni, o grupo acompanha possíveis aquisições em empresas que utilizam stablecoins para movimentar recursos entre países. Um dos exemplos citados pelo executivo é o corredor financeiro entre Brasil e Argentina, mercado no qual criptomoedas vinculadas ao dólar podem ser utilizadas para transferências e liquidação de pagamentos.
“Estamos olhando para o mundo de pagamentos em oportunidades com uso de stablecoin”, afirmou Dagnoni à Exame.
O executivo também explicou que o Mercado Bitcoin procura empresas capazes de acrescentar novos produtos à sua estrutura ou ampliar sua cobertura geográfica. Isso significa que eventuais aquisições poderão envolver tanto companhias especializadas em tecnologia de pagamentos quanto negócios já estabelecidos em outros países.
As stablecoins ganharam espaço nesse segmento porque permitem transferências de valor por meio de redes blockchain. No caso do USDT, a criptomoeda busca manter paridade com o dólar americano e pode ser utilizada como instrumento intermediário em operações de pagamento e remessas internacionais.
- Leia também: O prazo do Banco Central acabou e agora? Quem pediu licença cripto, quem ficou de fora e quem foi embora do Brasil
Uma empresa brasileira pode utilizar uma infraestrutura de pagamentos com stablecoins para enviar recursos ao exterior, enquanto o destinatário recebe dinheiro na moeda local, dependendo dos serviços oferecidos pelos intermediários envolvidos.
Esse modelo exige mecanismos de conversão entre moedas fiduciárias e criptomoedas, conhecidos como on-ramp e off-ramp, além de liquidez, controles de conformidade e integração com os sistemas financeiros locais.
O Mercado Bitcoin já vem desenvolvendo essa infraestrutura. Em julho, Daniel Cunha, executivo responsável por desenvolvimento corporativo da empresa, explicou que a companhia atua em dois segmentos principais de pagamentos internacionais.
O primeiro envolve remessas e pagamentos para pessoas físicas e jurídicas. O segundo contempla serviços de infraestrutura destinados a grandes empresas e processadores de pagamentos, que precisam movimentar valores elevados entre diferentes moedas e países.
Nesse segundo segmento, o executivo citou a XTransfer como um dos primeiros grandes clientes da estrutura desenvolvida pelo Mercado Bitcoin.
Tether investiu R$ 100 milhões e Mercado Bitcoin já incorporou clientes de três exchanges
O interesse por aquisições ocorre após uma série de movimentações que ampliaram a presença do Mercado Bitcoin no setor de ativos digitais.
Em julho, a companhia anunciou um aporte de R$ 100 milhões da Tether, equivalente a aproximadamente US$ 20 milhões. O investimento integrou uma rodada de financiamento Série C, que também envolve os fundadores do Mercado Bitcoin e o SoftBank, investidor da empresa desde 2021.
Segundo o anúncio oficial da Tether, os recursos serão utilizados na expansão da infraestrutura de pagamentos, no desenvolvimento de produtos tokenizados, no fortalecimento das operações de crédito e na identificação de oportunidades estratégicas de crescimento.
O investimento também fortaleceu a relação comercial entre as duas companhias. O Mercado Bitcoin já atuava como fornecedor de liquidez para operações envolvendo USDT, enquanto a Tether buscava ampliar sua presença em serviços financeiros baseados em blockchain na América Latina.
Além do investimento, o Mercado Bitcoin passou a receber clientes de outras exchanges que decidiram reorganizar suas operações no Brasil.
- Leia também: Cameras com IA ajudam Polícia de SP a prender ‘Rei das criptomoedas’ acusado de roubar R$ 45 milhões
Uma das principais movimentações foi o acordo com a Bitso, anunciado em setembro. A parceria permitiu que clientes brasileiros de varejo da exchange mexicana migrassem seus ativos para o Mercado Bitcoin, enquanto a Bitso passou a concentrar seus esforços em outros segmentos e mercados.
O acordo não envolveu fusão ou aquisição societária das empresas, mas estabeleceu uma estrutura comercial para a transferência de clientes e recursos.
O Mercado Bitcoin também firmou acordos envolvendo a Bity e a Coinext, ampliando sua base de usuários em meio à reorganização do setor.
Segundo informações divulgadas pela Veja em 31 de outubro, essas três parcerias trouxeram centenas de milhares de investidores para a companhia. O Mercado Bitcoin informou ainda que 98% do patrimônio incorporado por meio dos acordos continua sob sua custódia.
Entre os ativos transferidos pelos clientes, o Bitcoin representa 81% do patrimônio, seguido pelo Ethereum, com 7%, e pela Solana, com 4%.
- Leia também: Binance reabre saque de criptomoedas e US$ 2 bilhões saem de carteiras em apenas 3 horas
A empresa não revelou o volume financeiro absoluto recebido por meio dessas parcerias nem a quantidade específica de clientes provenientes de cada plataforma.
Com a expansão, o Mercado Bitcoin informou ter superado 4,8 milhões de clientes, acumulado mais de R$ 215 bilhões em volume transacionado e ultrapassado R$ 1,4 bilhão em ativos tokenizados.
Regulação do Banco Central pode acelerar compras de empresas cripto
O avanço da estratégia de aquisições está diretamente relacionado ao novo ambiente regulatório brasileiro.
O prazo para que empresas já atuantes no mercado apresentassem seus pedidos de autorização ao Banco Central do Brasil terminou na sexta-feira, 30 de outubro. A exigência faz parte do novo marco regulatório das prestadoras de serviços de ativos virtuais, conhecidas como PSAVs.
O Mercado Bitcoin protocolou seu pedido de autorização em 27 de outubro, conforme comunicado divulgado pela companhia. A solicitação permite que a empresa avance no processo regulatório, mas não equivale à concessão definitiva da licença.
Para o CEO da 2TM, o aumento das exigências regulatórias tende a acelerar a consolidação do setor, pois empresas menores poderão enfrentar dificuldades para arcar com os custos de capital, segurança, governança e conformidade.
Esse cenário pode abrir oportunidades para grupos com maior capacidade financeira adquirirem negócios menores ou estabelecerem parcerias para incorporar operações, tecnologias e clientes.
Segundo a Veja, o Mercado Bitcoin mobilizou aproximadamente 80 profissionais de uma equipe de 370 funcionários para trabalhar em sua adequação às regras do Banco Central.
O processo envolve mudanças nos controles internos, nos procedimentos de custódia, na gestão de riscos e nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro. A empresa também contratou a KPMG para serviços de asseguração relacionados à conformidade.
Embora o Mercado Bitcoin tenha informado que não precisou realizar um aporte adicional de capital exclusivamente para atender às exigências, a companhia reconhece que os novos procedimentos aumentarão seus custos operacionais recorrentes.
Ao mesmo tempo, sua estrutura financeira já inclui licença de instituição de pagamento e negócios relacionados ao mercado de capitais, o que pode favorecer a integração de diferentes serviços financeiros.
A estratégia para 2027 também contempla a ampliação da oferta de ativos tokenizados. Em setembro, Dagnoni revelou que a empresa pretende oferecer negociação de ações de companhias americanas, como Apple e Nvidia, e ETFs por meio de infraestrutura blockchain, além de explorar a tokenização de investimentos em empresas antes de suas ofertas públicas iniciais.
- Leia também ETFs de Bitcoin perdem US$ 643 milhões
Por enquanto, essas iniciativas fazem parte dos planos anunciados pela companhia e não representam produtos necessariamente disponíveis aos clientes.
Com o apoio financeiro da Tether, a ampliação de sua base de clientes e o avanço da regulamentação brasileira, o Mercado Bitcoin pretende transformar sua presença no mercado de criptomoedas em uma operação mais ampla de serviços financeiros, incluindo pagamentos internacionais, stablecoins, investimentos e crédito.
A eventual compra de empresas especializadas em pagamentos com USDT ou outras stablecoins poderá ser mais um passo nessa estratégia. Contudo, qualquer aquisição dependerá da identificação de oportunidades, das negociações entre as partes e, quando aplicável, das aprovações regulatórias necessárias.



