- Lula reverteu uma desvantagem de 2,2 milhões de votos e venceu com 4,4 milhões de vantagem, uma virada de aproximadamente 6,6 milhões de votos na diferença entre os candidatos.
- Lula melhorou seu desempenho relativo em 93,8% dos municípios brasileiros, assumiu a liderança em 212 cidades e virou a disputa em Minas Gerais.
- O Sudeste contribuiu com uma mudança favorável de 2,8 milhões de votos, superando o Nordeste, com 2,4 milhões, enquanto o maior comparecimento às urnas também ajudou na virada.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi resultado de uma mudança expressiva na distribuição dos votos entre as duas etapas da disputa. Depois de terminar o primeiro turno com aproximadamente 2,2 milhões de votos a menos que o adversário, Lula conseguiu inverter o resultado e conquistar a reeleição com vantagem superior a 4,4 milhões de votos.
A diferença representa uma mudança de aproximadamente 6,6 milhões de votos no saldo entre os dois candidatos em apenas três semanas. Mas de onde vieram esses votos? A resposta envolve a participação de eleitores que não haviam comparecido ao primeiro turno, a redução dos votos brancos e nulos, o espaço deixado pelos candidatos eliminados e, principalmente, o crescimento desigual dos dois finalistas em milhares de municípios brasileiros.
Um levantamento intitulado O que decidiu a eleição — 1º × 2º turno, elaborado por Daniel Coquieri, a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), comparou os resultados das duas votações nos 5.570 municípios do país. A análise, consultada pelo Bitnotícias, apresenta informações sobre distribuição geográfica dos votos, tamanho das cidades, idade, escolaridade e composição do eleitorado.
Os resultados revelam que Lula não venceu simplesmente porque manteve sua força no Nordeste. O levantamento indica que o Sudeste foi responsável por uma mudança favorável de aproximadamente 2,8 milhões de votos na diferença entre os candidatos, superior aos 2,4 milhões registrados no Nordeste.
A análise também mostra que Lula melhorou sua posição relativa em 93,8% dos municípios brasileiros, conquistou a liderança em 212 cidades nas quais não havia terminado à frente no primeiro turno e conseguiu reverter o resultado em Minas Gerais, estado em que havia sido derrotado em 4 de outubro.
Os dados ajudam a compreender a dimensão da virada eleitoral, embora não permitam identificar individualmente quais eleitores mudaram de candidato ou quais motivos determinaram suas escolhas. Em nota encaminhada ao Bitnoticas, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) saudou o presidente eleito.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) cumprimenta Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin pela eleição para os cargos de presidente e vice-presidente da República, respectivamente, e saúda a conclusão do processo eleitoral democrático. A Associação reafirma sua disposição para dialogar e colaborar com o novo governo em pautas de interesse do país, com foco no fortalecimento de um sistema financeiro sólido, eficiente e seguro. A ABBC destaca a importância do diálogo entre o setor público e a iniciativa privada para a construção de soluções que contribuam para o desenvolvimento do país e o atendimento das necessidades da sociedade.
Lula ganhou 10,4 milhões de votos entre os dois turnos
A dimensão da recuperação petista fica evidente quando se compara a votação nominal dos candidatos. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu aproximadamente 56,1 milhões de votos, equivalentes a 47,03% dos válidos. Lula terminou em segundo lugar, com cerca de 53,9 milhões de votos, ou 45,16%. A diferença favorável ao candidato do PL foi de aproximadamente 2,2 milhões.
No segundo turno, a situação se inverteu. Às 22h de domingo (25), com 99,98% das seções totalizadas, Lula somava 64.239.788 votos, equivalentes a 51,78% dos válidos, enquanto Flávio registrava 59.818.160 votos, ou 48,22%.
Isso significa que o presidente conquistou aproximadamente 10,4 milhões de votos adicionais em relação ao primeiro turno. Flávio Bolsonaro também cresceu, recebendo cerca de 3,7 milhões de votos a mais, mas seu avanço foi insuficiente para acompanhar o adversário.
No total, os dois candidatos receberam aproximadamente 14,1 milhões de votos adicionais na comparação entre os turnos.
- Leia também: Lula vence eleição com 51,7% dos votos e é reeleito presidente da República: o que muda para cripto?
O levantamento identificou três componentes que, combinados, explicam contabilmente o crescimento da votação dos finalistas: aproximadamente 9,3 milhões de votos que haviam sido destinados a outros candidatos no primeiro turno, 2,9 milhões de comparecimentos adicionais e uma redução de 1,8 milhão de votos brancos e nulos.
Esses números representam diferenças entre os totais das duas votações. Não significam que todos os eleitores que haviam escolhido outros candidatos passaram a votar em Lula ou Flávio, nem que os mesmos indivíduos que se abstiveram no primeiro turno compareceram no segundo.
Ainda assim, permitem entender por que a disputa mudou tanto em apenas três semanas.
Para superar a desvantagem de 2,2 milhões de votos, Lula precisava ficar com aproximadamente 58% do crescimento líquido da votação destinada aos dois finalistas. Terminou com cerca de 74%, contra 26% de Flávio.
Na prática, para cada dez votos adicionais no saldo agregado recebido pelos dois candidatos, pouco mais de sete foram contabilizados para Lula e menos de três para Flávio.
Esse desequilíbrio foi suficiente para transformar a derrota do primeiro turno em uma vantagem de mais de 4,4 milhões de votos no segundo.
Outro fator importante foi a redução da abstenção. Segundo os dados divulgados pela Justiça Eleitoral, o percentual de eleitores ausentes caiu de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,21% no segundo.
O movimento contrariou a tendência histórica de aumento da abstenção entre as duas etapas de eleições presidenciais. Mais de 128 milhões de eleitores compareceram às urnas no domingo, cerca de 3 milhões a mais que na votação de 4 de outubro.
Também houve redução dos votos brancos e nulos, que passaram de aproximadamente 6 milhões no primeiro turno para 4,2 milhões no segundo. Em termos proporcionais, a participação desses votos caiu de 4,77% para 3,24%.
No Nordeste, a redução foi ainda mais expressiva, passando de aproximadamente 5% para 2,9% dos votos.
Entretanto, a análise indica que a maior participação eleitoral, isoladamente, não explica toda a recuperação petista. Mesmo que os aproximadamente 2,9 milhões de comparecimentos adicionais tivessem resultado exclusivamente em votos para Lula, esse crescimento seria inferior à metade da mudança de 6,6 milhões registrada na diferença entre os candidatos.
A virada, portanto, dependeu de um conjunto mais amplo de alterações na distribuição dos votos válidos.
Lula avançou em 93,8% das cidades e virou Minas Gerais
Um dos resultados mais expressivos do levantamento aparece na análise município por município.
Segundo a comparação realizada com os dados do TSE, em 93,8% das cidades brasileiras a diferença de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro mudou em favor do presidente do primeiro para o segundo turno.
Isso não significa que Lula tenha vencido em 93,8% dos municípios. O indicador mede a mudança na diferença entre os candidatos: mesmo em cidades onde Flávio continuou sendo o mais votado, Lula pode ter ampliado sua participação ou reduzido a desvantagem.
O levantamento também identificou 212 municípios que passaram a registrar liderança de Lula no segundo turno, depois de resultados favoráveis a Flávio no primeiro. Essas cidades reuniam aproximadamente 10,9 milhões de eleitores.
No movimento contrário, apenas um município teria passado de uma liderança de Lula para uma liderança de Flávio.
Os números mostram uma recuperação territorial abrangente. Em vez de concentrar seus ganhos exclusivamente nas regiões onde tradicionalmente possui maior apoio, Lula conseguiu melhorar seu desempenho relativo em cidades de diferentes tamanhos e perfis.
Outro achado importante está na comparação entre municípios maiores e menores. Nas 11 cidades com mais de 1 milhão de eleitores, a participação de Lula entre os votos destinados aos dois finalistas aumentou, em média, 3,1 pontos percentuais.
Eleição nas cidades
Já nos 2.933 municípios com até 10 mil eleitores, o crescimento médio foi de 1,9 ponto percentual. O dado indica que as grandes cidades tiveram papel relevante na recuperação eleitoral do petista, embora a expansão de sua votação não tenha ficado restrita aos centros urbanos.
São Paulo é um exemplo da diferença entre o comportamento das grandes cidades e o resultado de todo um estado. Embora Flávio Bolsonaro tenha vencido no estado paulista com aproximadamente 53,85% dos votos válidos, Lula conquistou 55,5% na capital, maior colégio eleitoral do Brasil, com cerca de 9,1 milhões de eleitores.
O comportamento das capitais e das grandes regiões metropolitanas ajudou a reduzir vantagens obtidas por Flávio em municípios do interior. Mas nenhum estado simbolizou tanto a mudança entre os turnos quanto Minas Gerais.
- Leia também: Acionista da Circle ‘parte pra cima’ e Trump é processado por suposto lucro ilegal com criptomoedas
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro havia conquistado a liderança mineira. No segundo, Lula conseguiu inverter o resultado, obtendo aproximadamente 50,4% dos votos destinados aos dois finalistas, contra 49,6% de Flávio, segundo o levantamento.
A vantagem final apontada pela análise foi de 102.971 votos para o petista. Considerando apenas os votos destinados a Lula e Flávio, a participação do presidente em Minas passou de aproximadamente 47,3% no primeiro turno para 50,4% no segundo.
Minas Gerais foi o único estado em que o levantamento identificou uma mudança no candidato que terminou na liderança entre as duas votações. O resultado mineiro é particularmente importante porque demonstra como pequenas alterações percentuais podem produzir diferenças decisivas em estados populosos.
Sudeste foi o maior responsável pela vitória e não o Nordeste
Entretanto, a análise apresenta outro resultado que contraria a interpretação de que a reeleição ocorreu exclusivamente graças ao Nordeste.
Ao comparar a mudança da diferença absoluta entre Lula e Flávio Bolsonaro, o levantamento identificou um deslocamento de aproximadamente 2,8 milhões de votos favorável ao petista no Sudeste. No Nordeste, onde Lula manteve uma vantagem expressiva, a mudança correspondente foi de aproximadamente 2,4 milhões.
Ou seja, o Sudeste contribuiu mais do que o Nordeste para a redução e posterior inversão da diferença nacional entre os candidatos.
Isso não significa que Lula tenha vencido no Sudeste como um todo. A região continuou apresentando resultados distintos entre seus estados, mas a recuperação relativa do presidente foi suficiente para modificar consideravelmente o saldo nacional.
- Leia também: SwapCripto tem swap 100% anônimo, sem KYC, sem conectar wallet, sem login e sem informe aos reguladores
Outro dado interessante envolve as cidades onde Ronaldo Caiado havia registrado desempenho mais forte no primeiro turno. Nos 290 municípios identificados pelo levantamento como áreas de maior força eleitoral de Caiado, a participação de Lula entre os votos dos dois finalistas passou de 38,5% para 41,9%, uma alta de 3,4 pontos percentuais.
Nas cidades onde os candidatos eliminados tinham participação menor, entre 1% e 4% dos votos, o crescimento correspondente de Lula foi de 1,6 ponto percentual.
O resultado é compatível com a importância do eleitorado que havia escolhido outras candidaturas para a definição do segundo turno. Entretanto, os dados agregados não permitem afirmar que eleitores de Caiado tenham necessariamente migrado para Lula.
Mulheres, jovens e abstenção: quem ajudou Lula a crescer?
Além da distribuição geográfica, o levantamento cruzou o resultado da eleição com informações sobre idade, sexo e escolaridade do eleitorado de cada município. A análise identificou diferenças relevantes, principalmente entre cidades com maior e menor presença de mulheres.
Nos municípios em que as mulheres representavam entre 52% e 56% do eleitorado, a participação de Lula entre os votos dos dois finalistas cresceu, em média, 3,2 pontos percentuais. Nas cidades onde a presença feminina era inferior a 49%, o avanço foi de 1,6 ponto percentual.
Portanto, os municípios com maior proporção de eleitoras registraram um crescimento relativamente maior do presidente. A diferença permaneceu, embora menor, quando o sistema comparou cidades com características semelhantes, considerando a região e a força eleitoral de Lula no primeiro turno.
Isso sugere uma associação entre a composição feminina do eleitorado e o crescimento petista, mas não comprova que foram especificamente as mulheres as responsáveis pela mudança. Para identificar o comportamento individual dos eleitores, seriam necessárias pesquisas ou outras informações complementares.
O comportamento das cidades com maior presença de jovens também apresenta resultados interessantes. Na comparação geral, municípios onde pessoas de 16 a 24 anos representavam entre 6% e 10% do eleitorado registraram crescimento médio de 3,4 pontos percentuais para Lula.
Nas cidades com maior proporção de jovens, acima de 15%, o crescimento ficou próximo de 2,3 pontos. Entretanto, quando o levantamento passou a comparar municípios semelhantes em região e votação anterior, o padrão se inverteu: a presença de mais eleitores jovens apareceu associada a um crescimento um pouco maior de Lula em relação às cidades comparáveis.
Segundo a própria análise, o efeito foi fraco, mas mostra como a interpretação de dados eleitorais pode mudar quando diferentes características municipais são consideradas simultaneamente.
Uma situação semelhante aparece entre os eleitores idosos. Nas cidades em que pessoas com 60 anos ou mais representavam de 29% a 47% do eleitorado, Lula registrou crescimento médio de 3,3 pontos percentuais.
Em municípios com menor participação de idosos, entre 9% e 20%, o avanço foi de 2,6 pontos. Mais uma vez, o resultado perdeu força depois da comparação entre municípios semelhantes, indicando que a região e a distribuição anterior dos votos ajudam a explicar parte da diferença.
Escolaridade também fez diferença
A escolaridade também foi analisada.
Nos municípios com maior proporção de eleitores que haviam cursado o ensino superior, Lula apresentou crescimento mais expressivo na comparação geral. Em cidades onde esse grupo representava entre 15% e 46% do eleitorado, o aumento médio ficou em 3,4 pontos percentuais.
Entretanto, o próprio levantamento concluiu que a diferença associada à escolaridade praticamente desaparecia quando eram comparados municípios da mesma região e com desempenho semelhante de Lula no primeiro turno.
Isso indica que não é possível atribuir o crescimento do presidente a um determinado nível de escolaridade apenas com base nesses dados. O estudo também examinou o perfil dos eleitores que deixaram de votar no primeiro turno.
Entre as pessoas com 60 anos ou mais, a abstenção foi de 29,5%, enquanto entre os eleitores de 45 a 59 anos ficou em 13,5%.
A ausência também foi maior entre pessoas com menor escolaridade. Entre eleitores com ensino fundamental incompleto, 27,4% não compareceram às urnas. Já entre aqueles com ensino superior completo ou incompleto, a abstenção foi de 14,7%. Houve ainda diferença entre homens e mulheres: 21,9% dos eleitores masculinos não participaram da primeira votação, contra 19,9% das eleitoras.
Esses números mostram quais segmentos apresentavam maior espaço potencial para aumento de participação eleitoral no segundo turno. Entretanto, não indicam quais deles efetivamente retornaram às urnas ou em quem votaram.
O levantamento disponibilizado até a noite deste domingo ainda não continha uma comparação completa do comparecimento entre os turnos por perfil individual, tampouco uma análise detalhada por seção eleitoral capaz de esclarecer a influência de eventuais atrasos e da prorrogação do horário de votação.
O que os números permitem concluir
A análise dos resultados eleitorais mostra que a reeleição de Lula não dependeu de um único fator.
O presidente conseguiu ampliar seu número absoluto de votos muito mais do que Flávio Bolsonaro, melhorou sua posição relativa na maioria dos municípios, conquistou novas lideranças locais e conseguiu reverter a desvantagem em Minas Gerais.
- Leia também: Mastercard elogia a stablecoin RLUSD da Ripple
Ao mesmo tempo, a redução da abstenção e dos votos brancos e nulos ampliou o universo de votos válidos, enquanto os eleitores que haviam escolhido outras candidaturas deixaram de ter suas opções originais disponíveis na disputa final.
O avanço de Lula nas grandes cidades e a mudança de aproximadamente 2,8 milhões de votos no saldo do Sudeste mostram que a recuperação não foi apenas uma repetição de sua força eleitoral no Nordeste.
Por fim, a análise por perfil demográfico identifica associações entre o crescimento petista e características de determinados municípios, especialmente a participação feminina, mas não permite estabelecer individualmente quais grupos mudaram suas escolhas.





