- Fed propõe conta de pagamento sem crédito intradiário nem janela de redesconto
- Anúncio veio um dia após ordem executiva de Trump sobre acesso ao Fed
- Ripple, Anchorage e Wise ainda buscam ligação direta ao Fedwire
O Federal Reserve apresentou nesta quarta-feira (21) uma proposta que pode redesenhar o acesso de empresas cripto aos trilhos de pagamento do banco central americano. O desenho cria uma figura inédita: a chamada “payment account”, voltada a instituições financeiras não bancárias legalmente elegíveis, com o objetivo específico de compensar e liquidar transações.
A proposta saiu um dia depois da ordem executiva assinada por Donald Trump determinando que o Fed revisasse a expansão de acesso às master accounts. A velocidade da resposta indica que o texto já estava pronto na gaveta, à espera do sinal político de Washington.
Como funciona a nova conta
O modelo é deliberadamente enxuto. Os titulares dessa conta de pagamento não terão acesso a crédito intradiário, ficam de fora da janela de redesconto e não receberão juros sobre saldos mantidos em um Reserve Bank. Os serviços vêm com controles automáticos antissaque a descoberto, blindando o sistema contra estouros de caixa.
No comunicado, o Board do Fed afirma que a estrutura busca “apoiar a inovação atendendo às necessidades de compensação e liquidação de certas instituições elegíveis, ao mesmo tempo em que mitiga riscos materiais aos Reserve Banks e ao sistema de pagamentos”.
A versão atual é uma evolução do protótipo apresentado no request for information de dezembro de 2025, conhecido no mercado como modelo de “skinny master accounts”. Após o período de comentários públicos, o Fed ajustou pontos sensíveis: os limites de saldo de fechamento passam a refletir a atividade esperada de pagamentos da instituição, e o teto máximo foi elevado em relação ao desenho original.
Quem ganha com a proposta
Os principais beneficiados são entidades que vinham batendo na porta do Fed há anos sem sucesso. Entram nesse grupo as Special Purpose Depository Institutions de Wyoming, criadas justamente para custódia de ativos digitais, além de bancos cripto-nativos que tentavam regularização.
O caso mais simbólico é o da Kraken Financial, que conquistou em março uma master account limitada — a primeira empresa cripto a obter acesso direto ao Fedwire. Ainda na fila aguardando definição estão a Ripple, a Anchorage Digital e a fintech de remessas Wise. Para padronizar a análise, o Board recomendou que os Reserve Banks pausem temporariamente decisões sobre pedidos que se enquadrem no Tier 3 das Account Access Guidelines até a conclusão do processo regulatório. Confira a íntegra do comunicado oficial do Federal Reserve.
O que muda para o investidor brasileiro
O movimento tem leitura direta para o ecossistema brasileiro de criptoativos, embora o efeito seja indireto. Hoje, exchanges e provedores que operam pares com dólar dependem de bancos correspondentes nos EUA para liquidar pagamentos — uma camada adicional de custo e risco de contraparte. Se Ripple e Anchorage ganharem acesso, parte do trilho atualmente intermediado por bancos comerciais pode ser desintermediada, com potencial redução de spread em operações cross-border.
O cenário também conversa com o debate brasileiro sobre Drex e contas de pagamento para instituições não bancárias junto ao Banco Central. Enquanto o BC discute custódia tokenizada e PIX internacional, o Fed aceita formalmente que fintechs cripto deixem de operar sob a tutela exclusiva de bancos parceiros. A direção regulatória é a mesma: separar a função de liquidação da função de crédito bancário.
Há ainda o ângulo político. A iniciativa pode ser lida como mais um capítulo da guinada pró-cripto da Casa Branca, em contraste direto com a postura cautelosa adotada durante a administração anterior. Senadores como Elizabeth Warren já sinalizaram resistência, conforme mostrado na crítica à OCC e ao Fed sobre concessões a bancos cripto sem controles robustos.
O prazo para comentários públicos é de 60 dias a partir da publicação no Federal Register. Até lá, o Board recolherá manifestações de bancos, fintechs, exchanges e investidores institucionais. A decisão final desenha o terreno para a próxima fase da integração entre cripto e o sistema financeiro tradicional dos EUA, com reflexos para a disputa global por pagamentos em stablecoins.