- ICBA estima fuga de US$ 1,3 trilhão em depósitos se stablecoins pagarem juros
- Mercado de stablecoins já soma US$ 311 bilhões e Tesouro projeta US$ 3 trilhão até 2030
- Fed coloca GENIUS e CLARITY como prioridade de supervisão em 2026
A disputa entre stablecoins e bancos comunitários dos Estados Unidos saiu do campo teórico. Em carta enviada ao Senado em junho, a Independent Community Bankers of America (ICBA) calculou que, caso emissoras de stablecoins sejam autorizadas a repassar rendimento de Treasuries aos usuários, instituições locais podem perder até US$ 1,3 trilhão em depósitos quase 27% dos US$ 4,8 trilhões que sustentam o crédito comunitário no país.
O cálculo da associação aponta ainda corte estimado de US$ 850 bilhões na oferta de empréstimos. O número assusta porque mira diretamente o motor financeiro de pequenas cidades agrícolas, onde um único banco bancariza fazendeiros, comerciantes e prefeituras. A ICBA também cita projeção do Tesouro americano de que o mercado de stablecoins pode chegar a US$ 3 trilhões até 2030.
Hoje, segundo dados do CoinGecko citados pela própria entidade, a categoria já circula próxima de US$ 311 bilhões em capitalização. O documento da ICBA deixa claro que o gatilho não é o uso atual das fichas digitais é a possibilidade legal de pagar juros ao detentor final.
Por que o rendimento muda tudo
USDT, USDC e demais stablecoins majoritárias não distribuem juros ao usuário. O rendimento gerado pela carteira de T-bills e caixa fica com as emissoras, que usam o spread para custear operação e resgates. Se o Congresso americano formalizar o repasse desse yield dentro de um arcabouço supervisionado, o token deixa de ser apenas trilho de pagamento e vira concorrente direto da poupança.
Tesoureiros de condados, distritos escolares e cooperativas agrícolas passam a ter incentivo concreto para sacar caixa ocioso do banco local e parquear em uma carteira tokenizada que renda algo próximo da Selic americana. A Tether recentemente ultrapassou o Ethereum em valor de mercado movimento que ilustra a escala que o setor já atingiu, como mostrou o avanço do USDT sobre o ETH.
Fed acelera GENIUS e CLARITY
Em audiência na Câmara em 4 de junho, a vice-presidente de Supervisão do Federal Reserve, Michelle Bowman, classificou a implementação do GENIUS Act e do CLARITY Act como prioridade supervisória imediata. Bowman ressaltou que mais de 80% da atividade em stablecoins lastreadas em dólar acontece fora do território americano, o que pressiona Washington por velocidade.
O novo arcabouço exigirá capital, liquidez, reservas segregadas, regras de resgate e critérios claros para emissores e distribuidores. A peça que ainda está em aberto e que a ICBA quer impedir é justamente a permissão para repasse de juros ao varejo.
Reino Unido impõe teto de 40 bilhões de libras
Do outro lado do Atlântico, o Banco da Inglaterra publicou em 22 de junho seu modelo final para stablecoins em libra. A autoridade descartou um limite individual de posse e adotou teto agregado de US$ 40 bilhões por token amplamente utilizado. Também afrouxou a regra de lastro, permitindo até 70% das reservas em dívida pública de curto prazo, contra os 60% propostos inicialmente.
O movimento britânico vira referência para outras jurisdições. Hong Kong também avança com licenças próprias previstas para 2026, enquanto o Banco Central do Brasil discute travar saques de stablecoins por 24 horas na PSAV sinal de que reguladores em todo lugar tentam ganhar tempo enquanto desenham o perímetro do produto.
Revolut e fintechs já empacotam token com conta FDIC
A distribuição não espera a regulação fechar. O banco americano da Revolut oferecerá stablecoins, produtos com seguro FDIC e reforçou expansão ao solicitar licença ao OCC. A aposta é embutir o saldo tokenizado na mesma tela em que o cliente vê conta corrente, cartão e poupança.
Para o investidor brasileiro, o sinal é duplo. Competição por depósitos em dólar pode reduzir margens de bancos médios e exchanges que arbitram juros e captação internacional. Segundo, qualquer regra americana sobre repasse de yield criará pressão regulatória sobre o BCB e a CVM que terão de decidir se brasileiros poderão acessar stablecoins remuneradas via corretoras locais ou se o instrumento ficará restrito a estrangeiros, como já ocorre com fundos cripto após a recente proibição de operações de câmbio com fundos cripto.