- Schwab calcula custo de produção do BTC em US$ 60 mil para mineradores eficientes
- Custo médio da rede está em US$ 85,6 mil, acima do preço atual de mercado
- Mineradoras migram para IA e usam Bitcoin como receita de base off-peak
O Charles Schwab trouxe um argumento novo ao debate sobre onde o atual bear market do Bitcoin encontra fundo. Jim Ferraioli, diretor de pesquisa e estratégia em moedas digitais da corretora, sustentou na Bloomberg que o piso técnico do BTC não está em padrões de gráfico, mas no custo físico de produção da rede.
A tese é direta: nenhum ativo de commodity opera por muito tempo abaixo do custo de quem o fabrica. Para o Bitcoin, esse custo tem um número. Mineradores de ponta, operando em escala industrial com ASICs de última geração e energia a cerca de US$ 0,07 por quilowatt-hora, produzem cada BTC por aproximadamente US$ 60 mil.
Esse valor coincide com a mínima de fevereiro e com a média móvel de 200 semanas referência clássica de fundo em ciclos anteriores. O BTC chegou a US$ 126 mil no outono passado e recuou cerca de 50% até a marca atual, na casa dos US$ 63 mil. Brutal para quem comprou no topo, mas longe dos colapsos de 75% ou mais que marcaram bear markets passados.
Piso de energia define faixa de valor do BTC
Ferraioli trabalha com duas bandas. Na ponta eficiente, o custo é de US$ 60 mil. Já mineradores com ASICs antigos, energia mais cara e margens espremidas produzem cada moeda por cerca de US$ 95 mil, segundo dados da Glassnode citados no relatório de maio da Schwab. Essa banda entre US$ 60 mil e US$ 95 mil delimita a faixa de valuation operacional da rede.
O custo médio agregado de mineração estava em US$ 85.604 em maio de 2026. Com o preço transitando na casa dos US$ 60 mil, a rede como um todo opera no prejuízo. Historicamente, essa configuração antecede recuperações, não novos colapsos: mineradoras ineficientes desligam, o hash rate cede, o ajuste de dificuldade reduz o custo de cunhar novas moedas e o equilíbrio se restabelece em patamar mais alto.
A pressão vendedora, segundo a Schwab, tem origem demográfica clara. Quem compra Bitcoin nos últimos 18 meses está no vermelho. O custo médio dos detentores de ETFs spot americanos está perto de US$ 83 mil, e a base ativa de investidores excluindo recompensas a mineradores fica em torno de US$ 78 mil. Ambos os níveis funcionam como teto de oferta represada, não como suporte.
Glassnode aponta perdas de US$ 1,35 bi por dia
Dados on-chain confirmam o cenário. A última tentativa de recuperação travou exatamente na zona de US$ 83 mil, e perdas realizadas saltaram para US$ 1,35 bilhão por dia, com holders de longo prazo capitulando posições do topo. Fundos hedge, que detêm cerca de 30% dos ETFs spot, operam neutros fazendo arbitragem de basis em vez de direcional. Resultado, nenhuma demanda natural surge quando o preço cai.
O quadro lembra a leitura recente do diretor da Galaxy, que projetou o ativo abaixo dos US$ 60 mil, e dialoga com o teste da média de 200 semanas registrado em fevereiro. Para investidores brasileiros, o preço atual equivale a aproximadamente R$ 322 mil por BTC com o dólar em R$ 5,36, referência relevante para quem dimensiona aporte em real.
Mineradoras misturam IA e Bitcoin no mesmo data center
A parte construtiva da análise envolve a guinada das mineradoras listadas em direção a computação de alto desempenho (HPC) para inferência de IA. À primeira vista, a inferência paga mais por megawatt-hora que minerar BTC nos horários de pico. Mas demanda por IA não é homogênea: cai à noite e nos fins de semana.
A Schwab modela o Bitcoin como monetização ótima da carga base nos horários ociosos, com inferência sobreposta nos picos comerciais. Esse modelo híbrido reduz vendas forçadas de BTC para cobrir custos operacionais exatamente o tipo de pressão que a Bernstein já mapeou ao classificar mineradoras como senhorias de energia para a IA. Quanto menos venda compulsória de minerador, mais limpo fica o piso de US$ 60 mil que a tese energética da Schwab tenta defender.