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Só neste ano, ao menos quatro corretoras de cripto, entre nacionais e estrangeiras, anunciaram o fim das operações no Brasil. As prestadoras que decidiram permanecer têm até o final de outubro para pedir autorização ao Banco Central (BC).
A regra alcança quem presta o serviço, guarda, intermedia ou negocia o ativo pelo cliente, e quem não solicitar a licença no prazo terá de encerrar as atividades. O setor faz as contas para continuar. O usuário foi na direção contrária.
Os números da Receita Federal, divulgados em junho, mostram o tamanho dessa mudança. Desde agosto de 2019, quando a declaração de criptoativos passou a ser exigida, o país registrou R$ 1,58 trilhão em compra e venda desses ativos.
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Desse total, R$ 1,13 trilhão, ou 71,7%, foi em stablecoins. No primeiro ano, elas eram 3,5% do volume. Nos dois últimos anos, ficaram entre 76% e 80%. E quase nove em cada dez reais em stablecoins passam por um único token atrelado ao dólar.
Stablecoin é um token que representa uma moeda tradicional, quase sempre o dólar. Quem emite guarda uma reserva, em tese de um para um, e quem compra recebe um saldo que anda na velocidade de uma mensagem de celular, a qualquer hora. Não é uma aposta em valorização, como o bitcoin. É o dólar circulando por outro caminho.
Criptomoedas e ativos digitais
O ativo digital mais usado no Brasil não é uma criptomoeda que sobe e desce, mas um dólar em forma de token. Chamar isso de investimento em cripto é errar o nome. Na prática, virou uma conta em dólar que ainda ninguém batizou.
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Se não é investimento, para que serve? Mais para pagar do que para investir. O presidente do Banco Central disse, no ano passado, que a maior parte do fluxo de cripto no país é em stablecoins e que elas são usadas sobretudo como meio de pagamento, em boa parte para comprar no exterior.
É quem paga um curso lá fora ou recebe de um cliente em outro país e encontra um caminho mais rápido, e muitas vezes mais barato, que o câmbio tradicional. O Brasil resolveu o pagamento instantâneo dentro das fronteiras. O de fora, o brasileiro resolveu sozinho.
Os grandes do sistema financeiro leram os mesmos números. Neste mês, um dos maiores bancos digitais do país lançou nos Estados Unidos uma conta em dólar e euro que funciona com stablecoins. Dias depois, a emissora de uma das maiores stablecoins do mundo colocou no ar uma rede de pagamentos própria, com bandeiras de cartão, gestoras e a principal central de liquidação do mercado americano entre os validadores.
Por aqui, um dos maiores bancos privados do país já diz em público que stablecoin e depósito bancário tokenizado vão ter de conviver. O assunto saiu do fórum de cripto e entrou na mesa de quem tem a maior base de clientes.
O que falta é a regra, e vale olhar para fora. Os Estados Unidos começaram pelo token: a lei das stablecoins saiu no ano passado, com apoio dos dois partidos, e define quem pode emitir e como a reserva deve ser guardada.
A lei geral do mercado cripto parou no Senado neste mês, longe dos 60 votos de que precisava. Enquanto isso, o Brasil começou pelas empresas, definindo quem pode operar, com quanto capital e sob quais controles, e passou a submeter os pagamentos com stablecoins às regras do mercado de câmbio.
Stablecoin
A partir de janeiro de 2027, transferências acima de US$ 10 mil para carteiras próprias ou para fora do país poderão ficar retidas por até 24 horas. O que ainda não existe é a regra do token: quem pode emitir, onde fica a reserva e o que acontece se o emissor quebrar. O próprio BC admitiu, em evento do setor, que esse caminho só deve ficar claro no ano que vem.
Para quem usa, a regra das empresas já muda alguma coisa. Uma plataforma autorizada passa a responder ao Banco Central, com capital mínimo, controles e prestação de contas. O que continua sem dono é o token em si. A autorização diz quem pode vender a stablecoin, mas não garante a reserva de quem a emitiu.
Saldo em stablecoin não tem garantia do Fundo Garantidor de Créditos. A segurança depende de quem emite, de onde estão as reservas e de quem audita. Um saldo no aplicativo de uma instituição é um cofre cuja chave fica com outra pessoa.
Numa carteira própria, a chave é sua, e a responsabilidade também. Na tela, os dois parecem iguais. Por trás, têm donos, riscos e regras diferentes. A pergunta certa antes de comprar não é quanto rende. É quem devolve o dinheiro se algo der errado.
O brasileiro chegou ao dólar digital pelo caminho mais prático, e isso mostra o que ele quer do sistema financeiro: rapidez, custo baixo e acesso ao mundo. Esse movimento já somou mais de um R$ 1 trilhão em operações desde 2019. O próximo passo é conhecer melhor o que se tem nas mãos, do mesmo jeito que o brasileiro aprendeu a comparar tarifa de banco e taxa de câmbio. Quanto você sabe sobre o dólar que já usa?




