- Strategy comprou 334 BTC por US$ 28,7 milhões na última semana
- Recompra de ações STRC consumiu US$ 176,3 milhões no mesmo período
- Carteira da empresa chegou a 848.000 Bitcoin após terceiro trimestre quase estagnado
A empresa de Michael Saylor gastou mais dinheiro recomprando suas próprias ações preferenciais do que comprando Bitcoin na semana passada. A proporção foi de seis para um. Entre segunda e domingo, a Strategy adquiriu 334 BTC por US$ 28,7 milhões, enquanto destinou US$ 176,3 milhões à recompra de cerca de 1,77 milhão de papéis da classe STRC.
Os números constam de formulário 8-K entregue à SEC nesta segunda-feira. Com a aquisição, o estoque total da companhia chegou a exatamente 848.000 BTC.
Ao câmbio atual, com o Bitcoin em US$ 86.642 (R$ 452.392), a posição vale aproximadamente US$ 73,5 bilhões. O ativo sobe 1,7% em 24 horas.
Strategy quer pagar dividendos todo dia útil
Na mesma segunda-feira, a empresa protocolou uma proxy separada pedindo autorização dos acionistas para alterar o calendário de dividendos das quatro classes preferenciais: STRC, STRF, STRK e STRD.
A proposta troca os pagamentos quinzenais do STRC — e os trimestrais das outras três — por repasses em todo dia útil. A companhia afirma que nem as taxas nem o volume total de obrigações mudam. O argumento é operacional: reduzir o intervalo de reinvestimento e dar mais estabilidade ao preço dos papéis.
A votação está marcada para 28 de outubro, em assembleia especial. Se aprovado, o STRC migra para o novo regime já em novembro. STRF, STRK e STRD entram em janeiro.
Terceiro trimestre fecha com alta de apenas 0,2% no estoque
O ritmo de acumulação travou. Entre julho e setembro, a Strategy comprou 7.218 BTC e vendeu 5.553 BTC. O saldo líquido ficou em 1.666 moedas — algo próximo de US$ 143 milhões pelos preços atuais.
O estoque saiu de 846.000 BTC no fim de junho para 847.666 BTC em setembro. Avanço de 0,2%.
A comparação com o trimestre anterior é brutal. No segundo trimestre, a posição havia saltado de 762.099 para 846.000 BTC, crescimento de quase 11%. Ou seja: a empresa trocou de marcha.
Enquanto isso, a recompra de STRC consumiu cerca de US$ 1,38 bilhão apenas no terceiro trimestre. Quase dez vezes o valor do Bitcoin líquido acumulado no mesmo intervalo.
A Strategy também reportou ganho preliminar de US$ 20,91 bilhões em ativos digitais no período, reflexo principalmente da marcação a valor justo das moedas que já estavam em balanço — não de novas aquisições.
Empresa vira gestora de passivo, e não mais só compradora
Há uma mudança de natureza aqui que o mercado ainda está digerindo. Durante anos, a tese da Strategy era simples: emitir dívida e ações, comprar Bitcoin, repetir. O papel MSTR funcionava como proxy alavancada do ativo.
Agora a companhia dedica a maior parte do caixa a sustentar a precificação dos próprios instrumentos de captação. O STRC foi negociado a US$ 99,45, logo abaixo do valor declarado de US$ 100 — e é exatamente esse descolamento que a recompra tenta corrigir.
Para o investidor brasileiro que monta exposição via BDR de MSTR ou por ETFs de empresas ligadas a cripto, a leitura muda. O papel deixa de ser aposta pura em apreciação do BTC e passa a carregar risco de estrutura de capital. Dividendos diários em quatro classes diferentes criam uma máquina de pagamento que precisa de fluxo constante.
Vale lembrar que o Banco Central brasileiro ampliou recentemente a supervisão sobre ativos virtuais, o que torna a exposição indireta via ações estrangeiras um caminho cada vez mais usado por investidores locais que querem evitar custódia direta.
As ações MSTR subiam 2,9% no pré-mercado de segunda, cotadas a US$ 164,60. O movimento acompanha a recuperação do Bitcoin, que tenta romper a resistência de US$ 87 mil nesta semana.
Outro dado relevante: o saldo de BTC em exchanges caiu a 2,68 milhões de moedas, mínima desde 2023. A desaceleração da Strategy não interrompeu o aperto de oferta — apenas transferiu o protagonismo para ETFs e compradores institucionais menores.



