- IBGE vai incorporar operações com criptoativos na nova série das contas nacionais
- Ano base da revisão metodológica é 2021 e resultados saem em 2028
- Instituto seguirá manual internacional que exige registro imediato de criptoativos
O IBGE decidiu colocar as criptomoedas dentro da contabilidade oficial da economia brasileira. A mudança faz parte da construção de uma nova série do Sistema de Contas Nacionais, com ano base em 2021.
De acordo com o anúncio compartilhado com o Bitnotícias, isso significa que compras, vendas e estoques de criptoativos passarão a ter lugar definido nas tabelas que sustentam o cálculo do PIB brasileiro.
Técnicos do instituto detalharam o roteiro dessa revisão em documento técnico divulgado em setembro. O texto argumenta que as transformações da economia obrigam discussões permanentes entre os responsáveis pelas contas e organismos internacionais, para acomodar atividades que não existiam quando a metodologia atual foi desenhada.
O documento usa o tratamento dos criptoativos como exemplo concreto dessa lacuna metodológica. Aparece junto de outro ponto em revisão: a classificação de dados como formação bruta de capital fixo. A contabilidade nacional foi construída para medir fábricas, safras e serviços, não carteiras digitais nem bases de dados corporativas.
A revisão segue o manual internacional da área, que determina inclusão imediata das estatísticas de criptoativos nas tabelas de bens circulantes do país. Ou seja: o Brasil não está inventando padrão próprio, está se alinhando a uma norma já acordada entre institutos de estatística no mundo.

IBGE: resultados revisados chegam em 2028
O cronograma é longo. Os números revisados só devem ser publicados ao longo de 2028, o que dá ideia da complexidade de reconstruir uma série histórica inteira.
Antes disso, o instituto pretende abrir rodadas de conversa com a sociedade civil para explicar as escolhas feitas na transição. Enquanto a mudança de sistemas ocorre, a divulgação de painéis com séries mais longas fica suspensa — a equipe técnica se concentra na nova estrutura de análise.
Responsável pelo Censo, pelo IPCA e pelo INPC, o IBGE é o órgão que mede população, avalia a economia e mapeia o território nacional. Quando ele muda metodologia, o efeito se espalha por projeções de bancos, modelos do Tesouro e decisões de política monetária.
O movimento do IBGE chega no mesmo período em que o Banco Central finaliza o regime de autorização para prestadoras de serviço de ativos virtuais no país.
A convergência tem lógica prática. Uma vez que exchanges e corretoras operem sob licença formal, seus balanços e volumes se tornam dados reportáveis — matéria-prima que um instituto de estatística pode usar. Sem esse pedaço, medir cripto no PIB seria estimativa baseada em pouco mais que suposição.
O detalhe é que o funil regulatório promete ser estreito. Estimativas do próprio setor indicam que poucas empresas obterão licença do regulador. Se o mercado formal ficar concentrado em um punhado de companhias, a estatística oficial tende a capturar bem esse núcleo e mal a atividade que corre por plataformas estrangeiras e carteiras autocustodiadas.
Ano base 2021 pega o pico do ciclo anterior
A escolha de 2021 como referência não é neutra. Foi o ano em que o Bitcoin bateu recorde histórico acima de US$ 60 mil, o volume de negociação no Brasil explodiu e a Receita Federal registrou salto nas declarações de criptoativos.
Usar um pico de ciclo como base estatística embute um desafio técnico: o comportamento de 2021 não representa a média da década. O instituto terá que lidar com volatilidade extrema dentro de um sistema desenhado para variáveis estáveis.
Hoje o cenário é bem diferente daquele. O BTC é negociado a US$ 77.841, ou cerca de R$ 397.829, com alta de 1,6% em 24 horas, enquanto o Ethereum testa US$ 2.513 e os ETFs americanos operam em fluxo negativo.

