- Grantham, da GMO, projeta queda de até 70% nas bolsas americanas
- Cofundador da gestora chama Bitcoin de bobagem desnecessária e prevê valor zero
- SpaceX é citada como símbolo do excesso especulativo do ciclo atual da IA
O cofundador da gestora GMO, Jeremy Grantham, voltou a soar o alarme sobre o mercado americano e aproveitou para descartar o bitcoin como ativo de investimento. Em entrevista ao programa The Diary of a CEO, o gestor que administra US$ 85 bilhões classificou o ciclo da inteligência artificial como a maior bolha já vista nos Estados Unidos.
Grantham trabalha no setor há seis décadas e chegou a gerir US$ 165 bilhões no auge. A leitura agora é direta, o S&P 500 negocia entre 35 e 40 vezes os lucros, patamar muito acima da média histórica. O risco, segundo ele, é um recuo de até 70% nos índices americanos.
SpaceX vira símbolo do topo especulativo
O gestor comparou o momento atual a episódios clássicos de exuberância. Citou as ferrovias do século 19 e a bolha das pontocom de 1999. A Amazon, lembrou, multiplicou por sete antes de despencar 92% no estouro, ainda que tenha dominado o varejo mundial depois.
Para Grantham, a IA seguirá o mesmo roteiro, a tecnologia sobrevive, as ações não. O exemplo mais extremo do ciclo, na visão dele, é a SpaceX. A empresa define seu mercado endereçável como um quarto do PIB global e lista mineração de asteroides entre suas oportunidades.
“Em 50 anos vão contar histórias sobre a SpaceX como contam sobre a Bolha dos Mares do Sul”, disse.
A leitura conversa com uma preocupação que já apareceu em outros momentos. A própria BlackRock admitiu que o apetite por IA está drenando capital que iria para o bitcoin, enquanto Arthur Hayes traçou um cenário em que o colapso desse ciclo empurra o BTC para US$ 1 milhão via expansão monetária.
60% fora dos EUA e emergentes no radar
A receita prática que Grantham entrega ao investidor comum é específica. Ele recomenda alocar cerca de 60% das economias em índices de ações fora dos EUA, incluindo emergentes, Europa, Japão, Canadá e Austrália. O argumento numérico é forte, emergentes subiram 65% nos últimos 12 meses contra 25% do S&P 500.
O restante deve ir para títulos públicos, uma fatia pequena em ouro e prata e imóveis quando viável.
“Não tenha ações americanas. É uma estratégia simples e acionável”, afirmou.
Para o brasileiro, esse recado tem efeito colateral relevante. A bolsa local segue exposta ao humor do S&P 500, e a alocação em renda fixa via Tesouro Direto já oferece prêmio real raro globalmente algo que reforça a tese de rotação defendida pelo gestor.
Grantham lembrou ainda o caso japonês como aviso. O Nikkei chegou a 65 vezes os lucros em 1989 e levou 35 anos para recuperar o pico.
“Você nunca receberá de um consultor o conselho de tirar o rabo do mercado”, disparou, citando que a GMO perdeu metade da base de clientes ao alertar sobre o crash de 2000 com antecedência.
Bitcoin é chamado de bobagem desnecessária
A parte mais ácida da entrevista veio sobre cripto. Grantham diz que nunca teve bitcoin e não pretende ter.
“É uma peça desnecessária de bobagem. Não facilita nada além de criminosos movimentando dinheiro sem serem vistos”, afirmou.
Para ele, o ativo falha como reserva de valor pela volatilidade citou a queda de US$ 120 mil para US$ 60 mil e como meio de troca, por não ser aceito em lojas com facilidade.
Questionado se o BTC iria a zero, respondeu que sim, “no futuro distante”. O timing do comentário é simbólico, o bitcoin negocia hoje a US$ 59.330, com queda de 2,4% em 24 horas, segundo dados de mercado. O ethereum cai 3,2%, a US$ 1.560, e o XRP recua 3,6%.
Queda arrasta mercado cripto para zona de stress
O pessimismo de Grantham aparece num momento em que o mercado já testa suportes técnicos importantes. Mineradores chineses veem fundo entre US$ 42 mil e US$ 44 mil, e a 21Shares cortou projeções para 2026. Para o investidor brasileiro exposto via ETFs locais e exchanges, o recado prático é monitorar correlação com Nasdaq e dolarização da carteira caso a tese de Grantham se materialize, o BRL tende a se beneficiar do fluxo para emergentes.