- Stablecoins responderam por cerca de 80% do volume declarado de criptoativos no Brasil em 2025, segundo a Receita Federal.
- Desde fevereiro de 2026, pagamentos e transferências internacionais com ativos virtuais passaram a integrar formalmente o mercado de câmbio.
- Empresas passaram a avaliar stablecoins como alternativa para reduzir etapas, acelerar liquidações e ampliar a rastreabilidade de pagamentos internacionais.
As stablecoins responderam por cerca de 80% do volume declarado de criptoativos no Brasil em 2025, segundo a Receita Federal. Desde 2 de fevereiro de 2026, pagamentos e transferências internacionais com ativos virtuais passaram a integrar formalmente o mercado de câmbio sob regras do Banco Central.
A mudança regulatória, somada à busca por liquidações mais rápidas, rastreabilidade e redução de etapas, colocou esse instrumento no radar das tesourarias de empresas brasileiras para pagamentos de serviços, licenças, plataformas e fornecedores no exterior.
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Para Murillo Oliveira, profissional do mercado financeiro e Head of Treasury da Saygo Group, holding brasileira especializada em comércio exterior, câmbio e tecnologia para operações internacionais, a stablecoin começa a ser analisada menos pela lógica especulativa e mais por sua aplicação na gestão financeira.
“Quando a tesouraria olha para stablecoin como infraestrutura de pagamento, a discussão passa a envolver prazo de liquidação, custo efetivo, documentação, contraparte e rastreabilidade. É uma análise operacional, não uma aposta sobre valorização de ativo”, afirma Oliveira.

Stablecoin avança nos pagamentos internacionais
A predominância desse tipo de ativo já aparece nos números oficiais. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, aproximadamente R$ 1,13 trilhão em operações de compra e venda de stablecoins foram declarados à Receita Federal, o equivalente a 71,7% do volume dos principais criptoativos no período. Em novembro de 2025, a movimentação mensal chegou a R$ 39,7 bilhões. A USDT, referenciada em dólar, concentrou 88,7% do valor declarado nessa categoria.
Nos pagamentos empresariais, a aplicação é diferente da aquisição de um criptoativo com finalidade de investimento. No fluxo utilizado pela Saygo, a companhia transfere os recursos em reais, o valor é convertido em um ativo digital referenciado em dólar e segue para a operação internacional, com posterior conversão para a moeda fiduciária destinada ao beneficiário.
Esse formato permite que determinadas transações sejam concluídas no mesmo dia e também fora da janela bancária convencional.
“Para uma empresa que precisa pagar uma licença de software, uma plataforma ou um prestador internacional, a velocidade tem impacto direto na gestão de caixa e no cumprimento dos contratos. A stablecoin ganha relevância quando consegue simplificar etapas sem retirar os controles que uma operação financeira exige”, explica Oliveira.
Onde o pagamento digital pode fazer sentido
Serviços contratados no exterior, licenças de software, SaaS, royalties, assinaturas de ferramentas digitais, mídia, marketing, fretes internacionais e pagamentos a agentes de carga estão entre as operações nas quais a Saygo identifica maior aderência ao modelo. Despesas recorrentes ou com prazos mais curtos também podem se beneficiar da agilidade desse tipo de transferência.
Os ativos digitais ainda podem ampliar as alternativas de pagamento em mercados onde o acesso à infraestrutura bancária internacional é mais restrito. Nesses casos, porém, a operação precisa respeitar as sanções e regras aplicáveis, com análise das partes envolvidas, origem dos recursos e finalidade do pagamento.
Para empresas que atuam em diferentes países, essa possibilidade acrescenta uma nova rota de liquidação sem afastar as exigências de compliance.
A regulamentação ampliou a segurança jurídica da discussão. A Resolução BCB nº 521, publicada em novembro de 2025 e em vigor desde fevereiro deste ano, passou a enquadrar no mercado de câmbio atividades como pagamentos e transferências internacionais com ativos virtuais e a compra, venda ou troca de ativos referenciados em moeda fiduciária. A norma prevê ainda o envio de informações como finalidade da transação, identificação do cliente, ativo utilizado e dados do pagador ou recebedor no exterior.
“Essa mudança é importante porque coloca a operação dentro de uma estrutura regulatória mais definida. Para a tesouraria, significa combinar velocidade com identificação das partes, documentação, compliance e entendimento da finalidade do pagamento”, ressalta o especialista.
Custo menor amplia procura por pagamentos com stablecoin
A possibilidade de reduzir o custo total das remessas internacionais está entre os fatores que vêm ampliando o interesse das empresas por pagamentos com stablecoin. Além de spreads, tarifas bancárias e despesas cobradas por intermediários, operações tradicionais podem envolver incidências tributárias como IOF e IRRF, conforme a natureza do pagamento.
Em estruturas elegíveis, a utilização do ativo digital pode diminuir etapas e tornar a operação financeiramente mais eficiente, mas o impacto tributário precisa ser calculado caso a caso.
Para as tesourarias, a diferença ganha relevância principalmente em pagamentos recorrentes ao exterior, nos quais pequenas variações de custo se acumulam ao longo do ano. Serviços, licenças de software, royalties, SaaS e contratação de fornecedores internacionais possuem enquadramentos próprios, por isso a comparação precisa considerar o valor efetivamente desembolsado pela companhia, e não somente a cotação ou a tarifa anunciada pelo prestador.
A procura também é impulsionada pela velocidade. Dependendo da estrutura utilizada, transferências com stablecoins podem ser liquidadas no mesmo dia e fora das janelas bancárias convencionais. A rastreabilidade das transações, somada às exigências de identificação das partes e prestação de informações previstas pela regulamentação do Banco Central, acrescenta controles à operação e amplia sua utilização como alternativa para pagamentos internacionais.
“Quando colocamos todos os componentes na conta, a diferença pode ser relevante. As empresas estão buscando a stablecoin porque enxergam a possibilidade de reduzir custos da operação, diminuir intermediários e concluir o pagamento com mais velocidade e rastreabilidade. IOF, IRRF e demais tributos precisam ser avaliados conforme a finalidade da remessa, mas o ganho de eficiência financeira ajuda a explicar por que essa alternativa vem recebendo mais atenção das tesourarias”, afirma Oliveira.
Stablecoin amplia as alternativas da tesouraria
A entrada das stablecoins na rotina financeira amplia as opções das empresas para pagamentos internacionais, sem substituir o câmbio tradicional. Importações vinculadas à DI, Declaração de Importação usada no registro de operações aduaneiras, ou à DUIMP, Declaração Única de Importação que reúne informações aduaneiras, administrativas, comerciais, financeiras e tributárias em um único documento, além de operações que exigem comprovação cambial específica, continuam demandando estruturas convencionais. Já serviços digitais, licenças e pagamentos a fornecedores podem permitir outros formatos.
“O papel da tesouraria é identificar o instrumento adequado para cada obrigação. Em algumas operações, a stablecoin pode trazer mais velocidade e eficiência, enquanto outras continuam exigindo a estrutura cambial tradicional”, afirma Oliveira.
O avanço ocorre com maior controle regulatório. Desde julho de 2026, as operações com criptoativos passaram a integrar a DeCripto, obrigação criada pela Receita Federal. Para Oliveira, esse movimento reforça a presença do instrumento na gestão financeira.
“Quando a stablecoin passa a ser usada para pagar obrigações internacionais, entra definitivamente na agenda de caixa, câmbio, compliance e gestão de fornecedores”, conclui.



