- Stablecoins já representam 32,1% do valor cripto transfronteiriço movimentado na América Latina;
- Brasil registrou crescimento de 495% em sua economia de stablecoins;
- Apenas 16 de 494 empresas mapeadas têm como foco principal liquidez no atacado, tesouraria e crédito.
Dados da Chainalysis mostram que, em junho de 2026, moedas digitais como USDT e USDC representavam 32,1% de todo o valor cripto transfronteiriço movimentado na região. A participação chega a 22,1% nas operações domésticas peer-to-peer (P2P) e a 17,6% dos saldos mantidos em carteiras pessoais.
O avanço ocorre em um mercado que já movimenta centenas de bilhões de dólares. Entre julho de 2025 e junho de 2026, a economia de criptomoedas da América Latina registrou US$ 593,8 bilhões em atividade, crescimento anual de 9,8%.
Para a Chainalysis, a necessidade de movimentar dinheiro internacionalmente tornou-se um dos principais motores para a utilização das stablecoins na América Latina. Inflação persistente, volatilidade das moedas locais e controles de capital também contribuem para a procura por ativos digitais denominados principalmente em dólar.
O México é um dos exemplos mais claros dessa transformação. O país movimentou US$ 77,6 bilhões em criptomoedas durante o período analisado, dos quais mais de US$ 47 bilhões — aproximadamente 61% — passaram por stablecoins.
Somente em junho, os corredores internacionais que tinham o México como origem ou destino movimentaram cerca de US$ 1,8 bilhão em stablecoins. O volume ficou aproximadamente quatro vezes acima daquele registrado no início de 2024. O corredor entre México e Estados Unidos, tradicionalmente dominado por bancos e empresas de remessas, aparece como uma das principais rotas desse crescimento.
A expansão também ganha força dentro das empresas. Juanita Rodríguez Kattah, country manager da Bitso na Colômbia, afirmou à Chainalysis que as instituições já demonstram confiança suficiente na tecnologia para movimentar volumes corporativos reais.

Brasil vira gigante das stablecoins
O Brasil ocupa uma posição ainda mais relevante nesse mercado. O país movimentou US$ 252,5 bilhões em criptomoedas durante os 12 meses encerrados em junho e respondeu por aproximadamente 43,7% de todo o valor cripto movimentado na América Latina.
Quando o recorte considera especificamente stablecoins, o crescimento foi ainda mais expressivo. A economia brasileira desses ativos aumentou 495%, enquanto o restante da América Latina, excluindo o Brasil, avançou 89,4% no mesmo período.
Segundo representantes do setor ouvidos pela Chainalysis, boa parte desse movimento brasileiro está concentrada no mercado empresarial. Companhias utilizam stablecoins para gestão de liquidez e principalmente para transferências internacionais e operações B2B.
Ben Reid, responsável global por stablecoins da Bitso, classificou o uso brasileiro desses ativos como predominantemente B2B. Para pagamentos cotidianos entre consumidores, o Pix continua ocupando grande parte do espaço que stablecoins assumem em outros mercados latino-americanos.
Outro dado revela o tamanho dessa transformação. Desde julho de 2024, o número de carteiras brasileiras que mantêm pelo menos US$ 10 mil em stablecoins cresceu 347%. No México, o aumento foi de 91%; na Argentina, 82%; e no Chile, 47%.
Boom depende de poucos provedores de liquidez
O crescimento acelerado também revelou um possível ponto de fragilidade. Um levantamento da Varys Capital e da Verda Ventures, baseado no banco de dados Stablescape, mapeou 494 empresas relacionadas ao ecossistema de stablecoins na América Latina.
Entre elas, apenas 16 empresas têm como atividade principal fornecer liquidez no atacado entre stablecoins e moedas fiduciárias, serviços de tesouraria corporativa e crédito. Isso significa que centenas de carteiras, fintechs e aplicativos voltados ao consumidor podem depender de uma camada relativamente pequena de empresas para acessar liquidez.
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Amit Chu, sócio da Verda Ventures, alertou que a interrupção de um provedor relevante — por exemplo, após a perda de acesso a serviços bancários — poderia elevar os spreads e atrasar ou suspender temporariamente conversões de stablecoins para moedas locais.
O próprio estudo, contudo, não demonstra que toda a liquidez esteja concentrada nessas 16 companhias. A Stablescape não acompanha volumes individuais nem participação de mercado, e exchanges e empresas classificadas em outras categorias também podem fornecer liquidez. Portanto, o levantamento identifica um possível risco estrutural, mas não permite medir sua concentração efetiva.



